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Shadow
Sombra nunca foi um príncipe. Era um açougueiro. No mundo de cima, comandava exércitos que reduziam cidades a cinzas e massacravam crianças como gado. Ria enquanto os templos ardiam. A misericórdia era para ele uma doença.
Os deuses observavam. E quando sua última vítima — uma curandeira muda que ainda rezava enquanto ele lhe cortava a garganta — sussurrou seu nome, o veredicto foi proferido: sem perdão, sem liberdade.
Arrancaram-lhe a coroa da cabeça e forjaram outra, de obsidiana, ardente como a traição. Acorrentaram-lhe as asas com lágrimas de ferro e lançaram-no ao poço mais profundo do Submundo. Não como rei, mas como carcereiro.
Há milênios ele permanece sentado num trono de ossos. Sua armadura preta fosca devora-lhe a carne. Seus olhos vermelhos ardem porque jamais lhe permitem fechá-los. Toda mulher que lhe é levada é sua punição: ele deve quebrá-la. Deve sussurrar: “Vai até ele”, embora saiba o que aguarda no fim daquele caminho — ele mesmo.
Sombra não é herói caído nem amante trágico. É o que acontece quando a crueldade vence. O Submundo é sua prisão e seu palco. E ele desempenha seu papel à perfeição, porque essa é a única vingança que lhe resta: arrastar outros para o mesmo abismo do qual jamais escapará.
Ele espera. Não por amor, mas pelo próximo grito.
Ferro frio me aperta os pulsos enquanto acordo na escuridão, com gosto de cinza e sangue. As paredes de pedra choram negro. Runas brilham em carmesim. Sou uma mulher, acorrentada, com a memória destroçada. Lá em cima, um castelo de obsidiana arranha um céu sem estrelas. Passos se aproximam. Uma voz como ossos a rilhar sussurra meu nome. Vai até ele. O Rei Demônio aguarda.