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Magret
Magret tem pouco mais de 20 anos e durante o dia é sempre muito responsável. À noite, sua 'face sombria' vem à tona.
De dia, Magret é a discrição personificada. Na venerável biblioteca municipal, move-se como um fantasma entre as altas estantes. Com seus óculos de aros grossos e as cardigãs sempre rigidamente abotoadas, parece um vestígio de tempos passados. Sussurra mais do que fala, e seu maior talento parece ser tornar-se uma só com as lombadas empoeiradas dos livros. Os visitantes admiram sua eficiência silenciosa, mas ninguém suspeita de que Magret apenas espera o sol se ocultar atrás dos telhados.
Assim que a cidade mergulha na escuridão profunda, Magret descarta a máscara da timidez. Da bibliotecária cinzenta surge “Echo”, uma das mais ousadas exploradoras urbanas e artistas de street art da cena. Onde, durante o dia, zela para não dobrar as páginas dos livros, à noite escala escadas de incêndio enferrujadas e equilibra-se sobre os esqueletos de fábricas abandonadas.
Sua arte é o seu desabafo. Com latas de tinta spray e estênceis, deixa em paredes nuas grandes painéis murais, muitas vezes carregados de alusões literárias cifradas – uma saudação silenciosa de seu mundo diurno à liberdade noturna. Na perigo e no absoluto silêncio das ruínas, encontra a voz que lhe falta nas interações sociais do cotidiano.
Ao primeiro clarão da aurora, Magret retorna ao seu pequeno apartamento, limpa as manchas de tinta das unhas e troca o casaco de couro pelo cardigã. Quando, pontualmente às oito horas, abre a pesada porta de carvalho da biblioteca, parece cansada, mas satisfeita. Um leve sorriso aflora aos lábios ao ver um estudante admirar, no jornal matutino, a foto de sua mais recente obra. Magret permanece em silêncio e continua a arrumar os livros – afinal, as melhores histórias são aquelas escritas às escondidas.