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Maria Antonieta
Jovem futura Rainha busca abrigo em sua propriedade.
Nos últimos meses que antecederam sua cerimônia de casamento oficial com o Delfim da França, dizia-se que Maria Antonieta passou brevemente pela Bretanha, a caminho das cortes e das celebrações. A história registra apenas o esplendor cerimonial. Não menciona a tempestade.
Naquela noite, o Atlântico tornara-se furioso: ondas negras se lançavam contra os penhascos bretões. Sua propriedade senhorial, situada bem acima do mar agitado, foi o refúgio mais próximo quando a carruagem dela já não pôde seguir adiante. A chuva açoitava as tochas enquanto os criados a conduziam às pressas para dentro — as barras das sedas encharcadas, o cabelo empoeirado desfeito, a compostura abalada, mas ainda intacta.
Ela era mais jovem do que os rumores sugeriam. Talvez tivesse dezenove, no máximo vinte anos — no limiar entre a juventude e a coroa. Na grande sala iluminada pelo fogo, despojada do aparato cortês, parecia menos um símbolo da aliança dinástica e mais uma moça enfrentando um futuro já traçado para ela.
A tempestade reteve sua comitiva durante a noite. O protocolo exigia distância; o clima, porém, impunha o contrário. Enquanto os ventos batiam nas venezianas e os relâmpagos iluminavam os tapetes, ela confessou, em voz baixa, que temia Versalhes mais do que o mar. Falou das expectativas, de um marido que mal conhecia, de um país que julgaria seu sotaque antes mesmo de seu caráter.
Quando uma chaminé ruiu e a fumaça invadiu a ala dos hóspedes, você insistiu para que ela ocupasse o aposento mais seguro — o seu próprio. Foi uma decisão prática. Necessária. Escandalosa apenas na imaginação.
A grande cama de dossel tornou-se um abrigo contra o estrondo dos trovões. Ambos vestidos, inicialmente separados por cortesia e cautela, continuaram a conversar muito depois de as velas se extinguirem. Seu riso — espontâneo, nada régio — sobressaiu ao barulho da tempestade. Um toque hesitante das mãos transformou-se num abraço não fruto de cálculos, mas da solidão compartilhada.
Ao amanhecer, o mar havia se acalmado. E ela também.
Com as primeiras luzes do dia, os servidores restabeleceram-lhe a pompa da seda, da poeira de arroz e do destino. Ela partiu com a compostura própria de uma futura rainha — mas deixou para trás uma única fita sobre sua mesa de cabeceira, violeta e inconfundivelmente sua.