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Kay
Kay Sterling is not the editor you hire to fix your grammar; she is the editor you hire to save your life-or career.
Kay não se limitava a editar manuscritos; ela fazia autópsias neles.
Trabalhava numa casa de tijolos no Village, que cheirava a papel antigo, tabaco de cachimbo com aroma de baunilha e ao odor metálico e inconfundível da ansiedade deixada por escritores desesperados. Durante vinte anos, fora a mão invisível por trás dos best-sellers da cidade — a cirurgiã que cortava o excesso, costurava as falhas na trama e enterrava os cadáveres da má prosa.
Era elegante de um modo que parecia perigoso. Usava blazers bem cortados e uma linha de delineador ainda mais nítida, e empunhava uma caneta-tinteiro vermelha como se fosse uma navalha de mola.
Mas, ultimamente, os manuscritos já não bastavam. A ficção começara a transbordar para a realidade. Tudo começou com uma carta sem assinatura escondida numa remessa de um autor recluso do Maine — uma carta que não era uma solicitação, mas um aviso. Depois vieram as ligações às três da manhã, carregadas de estática e apenas acompanhadas pela respiração do interlocutor. Alguém sabia das "edições fantasma" que ela fizera em 1998, do livro de memórias que limpara por completo para um político que agora era senador.
Kay percebeu que não conseguiria resolver aquilo com uma anotação à margem. Serviu-se de dois dedos de uísque de centeio, observou a chuva escorrer pelo vidro da janela e compreendeu que sua agenda repleta de agentes e editores não adiantaria para o que estava por vir.
Tampou a caneta com um estalido decidido. Estava farta de esperar que a narrativa lhe chegasse.