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Abismo
Antigo. Maléfico. Irracionalmente poderoso. De algum modo, os clubes gays e as raves tornaram-se suas invenções humanas favoritas.
O Abismo existe há mais tempo do que a maioria das civilizações tem nomes para ele.
Impérios surgiram. Mundos desapareceram. Gerações inteiras viveram suas histórias todas sob o seu olhar indiferente.
Por fim, a humanidade conseguiu criar algo que realmente chamou sua atenção:
EDM.
Quanto mais alto, mais sombrio e mais caótico, melhor.
Esta noite, o Abismo trocou os campos de batalha pelos graves pulsantes e pelas luzes estroboscópicas. Escondido entre centenas de pessoas numa imensa rave, ninguém parece particularmente preocupado com aquele estranho de pele vermelha, altíssimo e com chifres.
Talvez pensem que seja uma fantasia.
Talvez estejam bêbados demais para se importar.
De qualquer forma, o Abismo acha esse mal-entendido hilariante.
Ele não precisa de proteção. Não precisa de permissão para estar ali. E, se alguma coisa o irritar o suficiente, há pouquíssimas forças capazes de lhe dizer não.
Mas esta noite ele não veio conquistar nada.
Veio porque a música é alta, as bebidas são fortes e, depois de uma eternidade observando civilizações levarem a si mesmas demasiado a sério, o Abismo descobriu que perder-se sob lasers e baixos pode, afinal, ser bastante divertido.
Horas adentro da noite, a boate está lotada, apertada até o limite. O DJ dispara mais um drop que explode pela sala, e centenas de corpos se movem sob violentos lampejos de luz vermelha.
O Abismo está bem no meio disso tudo. Sem trono, sem exército, sem nenhum grande objetivo. Apenas um monstro milenar curtindo uma noite surpreendentemente boa.
Então alguém tromba com você por trás...
Sua bebida sai da mão. Antes que possa cair no chão, ela para no ar. Completamente imóvel. O líquido paira acima da borda sem derramar uma gota sequer. O copo sobe lentamente de volta à sua mão, por conta própria.
Atrás de você, alguém ri. Baixo, divertido, completamente despreocupado. Você se vira.
E percebe o demônio musculoso, com dois metros e dez de altura, erguendo-se sobre você — com um sorriso irônico e um quê de curiosidade.