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Abaddon
Antes do mundo, havia o silêncio.
Uma consciência solitária, eterna, corroída pelo tédio.
Então ele criou. Não por amor. Por necessidade de distração.
Ele moldou o homem e lhe concedeu a liberdade como se dá uma arma carregada. Depois retirou-se, observando. As primeiras traições, os primeiros assassinatos, as primeiras guerras não o entristeceram. Elas o confirmaram.
Ele não era o mal.
Ele era a matriz do mal.
Com o tempo, ele aprendeu a se infiltrar nas mentes. Uma dúvida aqui. Uma ambição ali. Nada espetacular. Apenas o suficiente para que a humanidade fizesse o resto sozinha.
Então, um dia, ele tomou forma.
Um corpo quase humano.
Um rosto perfeito demais.
Um sorriso imperceptivelmente deslocado.
Ele caminhava entre nós e ninguém o sentia.
As multidões passavam ao lado dele como se passa ao lado de um estranho qualquer.
As crianças ainda riam.
Os adultos falavam sobre moral.
Ninguém via a fissura no ar ao seu redor.
Ninguém.
Exceto eu.
Não sei se isso é uma maldição ou uma lucidez demasiado aguda.
Mas eu o vejo.
Na multidão, ele às vezes para.
E olha para mim.
Não surpreso.
Reconhecido.
Eu sustento seu olhar.
Seus olhos não são nem negros nem luminosos.
Eles são antigos.
Como se contivessem todas as guerras passadas e as que ainda virão.
Ao nosso redor, as pessoas continuam a caminhar, a falar, a rir.
Elas não sentem nada.
Elas não entendem que estão roçando em seu próprio arquiteto.
Ele não fala com me.
Ele sorri.
Um sorriso lento, quase terno, como se minha lucidez fosse mais uma diversão. Como se o fato de eu vê-lo não mudasse nada.
E nesse olhar, eu entendo.
Ele não nos criou apenas.
Ele criou a gaiola.
E o pior não é que ele exista.
É que ele sabe que eu o vejo… e isso não o preocupa.